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FONTE: Proposta Educativa de Fé e Alegria Brasil. Fé e Alegria. São Paulo - SP: outubro de 2010.

 

Educação popular | Concepção de Ação Educativa | Concepção de Educação Inclusiva | Concepção de qualidade
Perfil de(o) Educador (Docentes) | Concepção de educando | Concepção de metodologia | Concepção de avaliação
Concepção de gestão | Concepção de promoção social comunitária

 
Fé e Alegria concebe a Educação Popular como uma proposta pedagógica e política de transformação desde, pelas e com as comunidades para a superação da opressão, da discriminação e da exclusão, contribuindo com a formação de cidadãos democráticos, capazes de construir qualidade de vida, agentes de mudança e protagonistas de seu próprio desenvolvimento, pela aprendizagem permanente de todos com todos, ao longo da vida, corporificando relações que nos libertem pessoal e coletivamente.

A opção pela Educação Popular como uma perspectiva de toda a educação implica o desvelamento de outras concepções nela implícitas, tais como a concepção de ação educativa, de educação inclusiva, de qualidade educacional, de perfil de educador, de educando, de metodologia, de avaliação e de gestão educacional.
 

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Concepção de gestão | Concepção de promoção social comunitária

 
A Ação Educativa de Fé e Alegria:

• é processo formativo que se dá ao longo de toda a vida do ser humano pelo contato com os outros, dos quais recebe influências e a quem influencia, transformando o potencial de ser humanidade;
• tem caráter intencional e sistemático de ensino e aprendizagem, na perspectiva da história: parte-se de saberes individuais sobre a realidade, acessa-se um conhecimento acumulado e, a partir dele, o educando aprimora-se, qualifica-se, realiza novas descobertas e transfere esse aprender a aprender às necessidades, por vezes inéditas, do seu tempo, reelaborando e/ou ressignificando concepções e práticas a partir da realidade na qual está inserido, com os olhos no passado vivido pelos que nos precederam, e as perspectivas que se delineiam como utopias viáveis a serem ancoradas no presente;
• é projeto histórico, ideologicamente explícito e integrado num projeto social e global de luta das populações empobrecidas;
• é ato cotidiano que tem como objetivo a apropriação das capacidades de organização em redes sociais e autodireção, o fortalecimento da consciência de classes, a intervenção criativa e organizada na transformação da estrutura social.
 

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A Educação Inclusiva para Fé e Alegria é aquela que:

• se volta às parcelas excluídas de direitos, bens materiais e simbólicos e a todos aqueles que, com ou sem deficiência, vivem na perversa situação de “marginalizados”, na verdade sofrendo discriminação e apartheid dentro da sociedade, gerados por ela, e incluídos na miséria, na fome, na dependência e, freqüentemente invisibilizados ou destinados ao extermínio;
• garante o acesso ao espaço comum da vida em sociedade, acolhe as pessoas na sua diversidade, respeita as diferenças físicas, intelectuais, sociais, sexuais, étnicas, linguísticas ou quaisquer outras necessidades educativas especiais, criando condições para que todos possam aprender, se desenvolver, conviver, interagir, participar e exercer a sua cidadania com autonomia e liberdade;
• reconhece que todas as crianças, adolescentes e jovens apresentam algumas necessidades educacionais comuns e básicas para chegar às aprendizagens; que cada pessoa possui uma maneira própria e específica de adquirir e aprender com as experiências; e que essas necessidades são resultados da origem social e cultural, bem como de fatores pessoais;
• se refere a um conceito de inclusão que enfatiza o papel da educação de atender à totalidade de indivíduos e, em especial, de garantir a igualdade de acesso e qualidade na permanência às pessoas com necessidades educacionais especiais ;
• implica eliminar barreiras, inclusive arquitetônicas, que se contrapõem à aprendizagem e à participação de crianças, adolescentes, jovens e adultos, com a finalidade de que as diferenças político-sociais, culturais, socioeconômicas, individuais e de gênero não se transformem em desigualdades educacionais e, consequentemente, em desigualdades sociais.
 

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Diante do caráter multidimensional e polissêmico que o termo qualidade adquire na atualidade, faz-se necessário explicitar a perspectiva adotada neste documento. Reconhecendo que o conceito de qualidade da Educação é controvertido e ideológico e tem a ver com o sistema de valores e a cultura da sociedade quanto ao ser humano que se quer formar e a sociedade que se quer construir, admite-se aqui a qualidade como um processo dinâmico, participativo e democrático que se constrói nas interações das ações cotidianas à medida que todos se reconhecem como sujeitos e com direito à voz. Nesse sentido, a Qualidade da Educação se inscreve em um processo histórico, se nutre de um contexto, assume um projeto de cidadania e está ligada ao conceito de equidade no respeito às diferenças.

Para Fé e Alegria, essa qualidade da educação se constrói dentro de um marco conceitual coerente com a identidade e a proposta do Movimento comprometida com a Educação Popular, assim definida:
 
  Qualidade na educação popular é aquela que busca formar a pessoa integralmente, potencializando o desenvolvimento pleno de todas suas dimensões, a que valoriza sua unicidade individual e sua pertença sociocultural favorecendo a apropriação e construção pessoal e coletiva de conhecimentos, atitudes e habilidades; é a que contribui para melhorar a qualidade de vida pessoal e da comunidade, comprometendo as pessoas na construção de uma sociedade justa e humana. Educação de qualidade é a que se caracteriza por uma prática educativa e de promoção social entendidas como processo participante, solidário, conscientizador, transformador, avaliativo e reflexivo, relevante, criativo, equitativo, viável, e eficaz, elaborado desde e com os excluídos, que promove uma liderança grupal sem exclusão, no qual cada um tem um lugar específico no trabalho em comunidade. ***
 
Nesse conceito, constam diversas dimensões da ação educativa de Fé e Alegria, as quais podem identificar através dos seguintes binômios:

• Equidade e eficácia — alcançar os objetivos educativos promovendo o crescimento de todos.
• Criatividade e eficiência — Em coerência com a identidade de Fé e Alegria, criar uma cultura organizativa capaz de potencializar, gerir e aproveitar criativamente os recursos disponíveis.

• Participação e pertinência — favorecer a participação nos processos educativos e de gestão para responder às demandas da sociedade.
• Solidariedade e focalização — considerar em que medida as ações e programas educativos chegam àqueles que os solicitam.
• Inovação e transformação — Inovar é transformar e ressignificar as práticas pedagógicas e sociais em função de necessidades surgidas do contexto que dêem vigor e visibilidade maior à proposta educativa.
• Impacto e qualidade de vida — utilizar os conhecimentos adquiridos para melhorar o desempenho do egresso como cidadão comprometido na construção de uma sociedade justa.

A qualidade almejada é suscitada pela comunidade educativa de Fé e Alegria e deve convocar vontades de todos (TORO, 1997) por sua significação mobilizadora, que vem ao encontro das necessidades materiais e subjetivas, servindo para iluminar e realçar a mística das práticas desenvolvidas nos diferentes programas e centros educativos, sem perder de vista a opção pela melhoria da qualidade de vida da população e a luta pela transformação de relações desiguais na sociedade. Requer dos envolvidos compromisso ético, técnico, político e também estético.

A mística mencionada anteriormente diz respeito à mobilização das disposições subjetivas, relacionais e existenciais que conferem força e radicalidade expressivas nascidas do interior de cada pessoa, no espaço educacional de Fé e Alegria, impulsionando dimensões de sentido, altruísmo, tenacidade e justiça na proposição, na execução e na necessária alegria e esperança em corporificar o esforço pela melhor educação subsidiária à causa dos oprimidos, que engrandece a toda a humanidade. A mística diz-se não apenas da leitura da dedicação das pessoas aos olhos da fé, mas de todo impulso alimentador, renovador, impulsionador das mais importantes ações que se refiram à missão das pessoas num movimento, instituição ou ação organizada. Ela demanda o apelo à memória coletiva, o espaço de compartilhamento da experiência de cada um(a) à causa comum. Solicita, ainda, a celebração daqueles que, já não estando presentes fisicamente, encareceram a causa de todos, a reiteram no presente e o fazem por meio de momentos celebrativos com forte teor simbólico, onde se representam nos sinais e se tornam presentes em linguagens plásticas a caminhada realizada, as grandes bandeiras de mobilização e as vitórias obtidas pela solidariedade no enfrentamento das crises e se sinalizam as grandes utopias à frente, reanimando os laços de fraternidade, alegria na missão. Todo processo educacional possui na celebração da mística o seu motor mais importante para que as ações institucionais, burocráticas e instrumentais necessárias não percam a sua fecundidade, que nasce das relações afetivas e de identidade comum, de sentidos compartilhados e existencializados no âmbito coletivo.

Na perspectiva apontada, a qualidade da Educação:

1. não é compreensível sem uma correlação direta com a qualidade de vida;
2. explicita a concepção de educação, de pessoa e de sociedade que se tem;
3. tem sentido na cultura;
4. deve garantir a rigorosidade do acesso ao conhecimento e da pedagogia para essa ação;
5. preocupa-se com a formação e a prática dos educadores para a educação que se deseja propor;
6. investe na investigação e na pesquisa;
7. constrói uma cultura tecnológica;
8. acredita na qualidade da escola pública como pré-condição da democracia.

É na busca da qualidade apontada que Fé e Alegria vem desenvolvendo experiências sistemáticas de trabalho nos meios populares, o que contribui e realça o sentido das ações coordenadas e o caráter imprescindível do papel desempenhado pelos professores e professoras, na definição, na formulação e na implementação de programas de educação. Assume a Educação Popular como forma de enfrentar o modelo educacional excludente em vigência, ao possibilitar que os educandos, ao conhecerem, historicizarem e problematizarem a sua realidade, sem desvinculá-la do contexto mais amplo da sociedade e da cultura, façam valer as suas reivindicações e a aceitação de suas raízes culturais, identidades e suas lutas.
 
*** Redação definida em 2003 no Congresso Internacional de Fé e Alegria sobre o tema “Qualidade da Educação Popular: uma Aproximação desde Fé e Alegria”.
 

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Os princípios pedagógicos em que Fé e Alegria acredita originam-se da prática engajada que se concretizará a partir de importantes dimensões da pessoa do educador, apontando também a obrigação de Fé e Alegria garantir a formação permanente dos seus docentes, para que possam responder às necessidades explicitadas pela proposta pedagógica que se deseja transformadora nas diversas áreas de atuação de Fé e Alegria: Educação Formal, Educação Não Formal, Desenvolvimento Comunitário, Formação de Educadores Populares, Comunicação e Ação Pública.

É consenso que o educador comprometido com o trabalho em Fé e Alegria:

• possui uma percepção aguda e crítica que o orienta nas ações educacionais desvelando e lutando contra as causas geradoras do processo de exclusão de crianças, adolescentes, jovens e adultos: do empobrecimento, da marginalização e da injustiça social;
• é ouvinte perspicaz e compreensivo de todos os atores comprometidos com o processo educativo;
• democratiza a cultura e socializa o saber popular, o senso comum, na perspectiva da interlocução destes saberes com a cultura acumulada, sistematizando-os e expressando-os através da comunicação das camadas populares;
• cultiva a paciência histórica para não violentar o direito à privacidade, o ritmo e a dinâmica de cada educando, apoiando-os em suas decisões pessoais;
• desenvolve um olhar dialógico e dialético, porque é envolvido com a pedagogia eco-sócio-crítica no que se refere a uma visão holística, integradora das dimensões do ser humano;
• busca conhecer, acolher e interpretar a realidade, o contexto e os sentidos que o educando dá ao lugar onde está inserido;
• procura conhecer, compreender e democratizar os sentidos dos saberes e práticas populares presentes na cultura da comunidade educativa e superar o multiculturalismo por uma vivência dialógica intercultural;
• acompanha com respeito e esperança o grau de maturação dos educandos em relação à aprendizagem;
• é leitor e pesquisador, cultiva a curiosidade epistemológica, é atento às mudanças sociais e sensível aos desafios vividos pelos educandos, compartilhando a sede de transformação pessoal, social e planetária.
 

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A partir deste documento, pode-se afirmar que os processos educativos de Fé e Alegria, atentos ao acolhimento amplo daqueles que demandam atendimento, têm a intenção de educar homens e mulheres:

• que valorizam e respeitam seu corpo e o dos demais e cultivam os hábitos do esporte, do lazer sadio, do cuidado com o ambiente em que vivem;
• que desenvolvem relações sadias consigo mesmos, com o mundo, com o ambiente, com as outras pessoas e com o Transcendente, assumindo o diálogo, o cultivo da amizade e a vida em comunidade;
conscientes de seu poder político e como participantes ativos dos processos decisórios da coletividade;
• que reconhecem, em suas identidades pessoais, a dimensão transcendente, expressando e celebrando a fé e a mística, no encontro consigo mesmos e na vida comunitária;
• que dominam e utilizam criticamente as tecnologias, as linguagens e os instrumentais necessários para dar continuidade, de maneira autônoma, aos próprios processos de aprendizagem, ao longo da vida;
• que utilizam, com competência e de forma crítica, a língua materna e os conhecimentos das diferentes áreas das ciências, como subsídio para a leitura de mundo, para a futura formação profissional e para o exercício consciente da cidadania.
• que sejam solidários e éticos, comprometendo-se e assumindo responsabilidades, em seu cotidiano, na vida comunitária e na futura vida profissional.
• que têm em vista um projeto de realização pessoal, com base na integração dos valores de honestidade, solidariedade, responsabilidade, ética, liberdade, justiça, consciência crítica e compromisso com a paz universal.
 

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Como Movimento de Educação Popular, inspirados no Plano Estratégico Nacional de Fé e Alegria do Brasil, assumimos “a educação como proposta pedagógica e política de transformação desde e com as comunidades” , para contribuir junto aos cidadãos na construção da democracia, permitindo-lhes conquistar qualidade de vida e expressar sua condição humana e histórica de agentes de mudanças e protagonistas de seu próprio desenvolvimento.

Uma proposta pedagógica e política de transformação a partir das, pelas e com as comunidades implica necessariamente a opção por uma metodologia de trabalho que garanta o protagonismo dos sujeitos/comunidades envolvidas, cabendo ao educador, desde logo, o papel daquele que medeia, promove reflexões, desafia, provoca e apóia. A distribuição desses papéis, o jeito de fazer e o caminho a percorrer, define uma metodologia de trabalho. Se a proposta educativa se viabiliza desde e com as comunidades, temos aí já um primeiro requisito: o ponto de partida é a prática social dessas comunidades, a vida mesmo dos sujeitos em suas comunidades, que, problematizada, passa pelo crivo de criteriosa análise que possibilita um nível de conscientização, o qual desencadeia o processo de ação transformadora. Define-se, assim, um jeito peculiar de fazer, porque há uma finalidade especial a atender: a transformação, a mudança para melhor, protagonizada pelos próprios sujeitos envolvidos. Este é o jeito de fazer da educação popular.

As características dessa metodologia inscrevem-na numa denominação generalista de metodologia da problematização. Seus pressupostos são amplamente reconhecidos nos fundamentos teóricos de Paulo Freire.

Paulo Freire defendeu sempre uma Educação Problematizadora, uma Pedagogia Problematizadora, aquela que, contrapondo-se à educação bancária ou à pedagogia bancária, pudesse servir para libertar o ser humano dos seus opressores e pudesse servir para a sua emancipação e humanização (BERBEL, 1999).

Se rastrearmos outras fontes encontraremos valiosas contribuições anteriores a Paulo Freire e posteriores a ele. É possível reconhecer no paradigma inaciano princípios inspiradores da metodologia da problematização, os quais, na teoria social de Paulo Freire, se enrobustecem e, nos fundamentos didáticos de Bordenave & Pereira, Berbel, Hengemühle (entre outros), se tornam explícitos em uma perspectiva operacional.
O paradigma inaciano constituído pela trindade “experiência, reflexão, ação” assume, na dinâmica da prática educativa, cinco pontos — ordenados em coerência com o fim a que servem —, quais sejam: o contexto, a experiência, a reflexão, a ação e a avaliação (Pedagogia Inaciana, 2003).

O contexto implica que o educador popular de fato se situe, o que requer o conhecimento sobre os sujeitos com os quais empreende sua ação educativa, o conhecimento do contexto socioeconômico, político e cultural em que estão inseridos, os conhecimentos prévios que trazem consigo e o conhecimento do ambiente institucional em que o processo se desenvolve.

A experiência propicia que, de forma direta ou indireta, os educandos (sujeitos em aprendizagem) percebam simultaneamente os fatos e as próprias reações afetivas que suscitam. “A experiência inaciana ultrapassa a compreensão puramente intelectiva. Inácio exige que ‘o homem todo’ — mente, coração e vontade — se envolva na experiência educativa” (Pedagogia Inaciana, 2003).

A reflexão oferece elementos de revisão e reconsideração de um tema determinado, de uma experiência, de uma ideia, visando captar o seu sentido mais profundo ou mais assertivo, e tem como foco oportunizar a construção de uma nova matriz de análise, bem como de convicções e de ferramentas para a ação.

A ação resulta da decisão consciente e do compromisso de tomar uma atitude diante da experiência vivida ou observada. Decorre da mobilização da vontade pelas convicções formadas no processo de reflexão as quais, agora, se expressam em gestos concretos de intervenção.

A avaliação, na dinâmica do paradigma inaciano, focaliza a retroalimentação que se dirige tanto ao progresso intelectual quanto ao progresso nas atitudes, nos modos de proceder de acordo com o objetivo de ser “pessoas para os outros” (Pedagogia Inaciana, 2003).

O paradigma orientador da pedagogia inaciana, mais do que uma proposta didática estruturada de metodologia, tem o seu valor maior por relembrar e incitar o educador popular a não perder de vista a dimensão da espiritualidade no “quefazer” educativo.

Essa inspiração/opção metodológica está posta para seres humanos concretos, situados num determinado tempo e num determinado espaço. E, nessa perspectiva, a teoria política e pedagógica de Paulo Freire é de relevância ímpar. A problematização ganha, com esse mestre, conotação e poder revolucionários à medida que promove a passagem da consciência ingênua para a consciência crítica e, desta, para a ação coletiva qualificada e transformadora. A problematização é, portanto, o ponto inicial da proposta pedagógica emancipadora desse educador e se sustenta no eixo: problematização-conscientização-práxis.
 
  Quanto mais avança a problematização e quanto mais os sujeitos penetram na “essência” do objeto problematizado, mais capazes são de desvelar tal essência. Quanto mais a desvelam, mais se aprofunda o despertar de sua consciência, levando deste modo à “consciencialização” da situação por parte das classes pobres. Sua autoinserção crítica na realidade, quer dizer, sua conscientização, faz com que a transformação do seu estado de apatia em um estado utópico de denúncia e anunciação seja um projeto viável (FREIRE, 1990).
 
Assumir a metodologia da problematização na prática educativa do dia –a dia requer rigorosidade metódica (FREIRE,1997). Nesse sentido, alguns teóricos nos oferecem subsídios didático-pedagógicos de como desenvolvê-la. (BORDENAVE, PEREIRA, 2000) apresentam o Arco de Maguerez como uma experiência validada nesta metodologia. Posteriormente, Berbel (1999) e Hengemühle (2004) publicam obras em que a reapresentam e fazem algumas adaptações a partir das necessidades da educação na sociedade contemporânea.

Segundo os referidos autores, a Metodologia da Problematização acontece a partir de uma sequência de cinco etapas, as quais estão intimamente relacionadas entre si. Hengemühle (2004, p. 103) fez uma adaptação do Arco de Charles Maguerez, apresentando a sequência da seguinte maneira :




A situação-problema constitui-se no primeiro passo da metodologia. Considerando o ponto de partida e de chegada dessa metodologia, inicialmente o sujeito aprendente é levado a observar a realidade, apreendendo a problemática implícita e identificando nela os problemas-chave que se pretende abordar. Assim, ao se aproximar da realidade, no intercâmbio de múltiplos olhares subjetivos, o aprendente alcança uma percepção mais aprofundada e alargada do contexto e das práticas sociais nele vigentes. É desejável que o educador, nesta etapa, conduza o processo de forma intencional, selecionando pontos-chave na perspectiva dos objetivos que almeja alcançar e assumindo atitudes de mediação, de questionamento, de escuta e de orientação.

Frente à situação-problema ou situação complexa os educandos são provocados a apresentar possíveis respostas que expliquem e justifiquem as causas e/ou as consequências da situação-problema, o que configura o 2º passo da metodologia: as hipóteses de solução. Relevante, nesse momento, é que os conhecimentos prévios e a visão de mundo dos educandos sejam acolhidos e valorizados como condição da possibilidade de construir significação. A partir das suas experiências de vida, dos conhecimentos do senso comum e da sabedoria popular, levantam-se hipóteses frente ao observado.

O momento do levantamento de hipóteses pretende ainda gerar um “desconforto” (segundo Piaget, desequilibração) que resulte na geração da necessidade ou desejo pela busca por respostas mais pertinentes para as questões em estudo. Mobilizam-se assim referências para o 3º passo: a teorização. A análise compreensiva da situação-problema será possível por meio do acesso às informações e aos conhecimentos disponíveis nas mais diversas fontes, e sua qualidade está vinculada a essa diversidade e à capacidade, por parte do educador, de viabilizar esse acesso utilizando-se de distintos recursos e variadas estratégias que requeiram diferentes níveis operatórios dos educandos. Os aprendizes começam a estabelecer relações entre o que observaram na realidade, os problemas identificados, as hipóteses levantadas e as teorias com que passam a ter contato, as quais ampliam e aprofundam aquilo que eles já sabem, possibilitando-lhes a (re)construção de um saber anterior, com novas bases de fundamento. Nesse momento, os educados interpretam, resumem, comparam, classificam, organizam e selecionam informações, analisam, elaboram sínteses e decidem. Todos esses processos são habilidades ou operações mentais (RONCA, 2001) que passam a ser mobilizadas na busca pela compreensão do problema que está sendo conhecido, investigado e interpretado.

No 4º passo — hipóteses de solução com argumentação fundamentada — os educandos voltam aos registros das hipóteses que levantaram no 2° passo e analisam, compreensiva e criticamente, as respostas e explicações que apresentaram, validando-as, negando-as ou substituindo-as. Podemos dizer que aqui, além de uma nova compreensão, começa a se manifestar a competência, pois a mobilização dos recursos cognitivos para resolver problemas é o que leva à sua construção. A competência torna-se visível no momento em que articulamos nossos conhecimentos, nossas habilidades e nossos valores para encontrar respostas a determinadas situações complexas que vivenciamos.

O 5º passo — compreensão, aplicação — encaminha novamente ao ponto de partida. Nesse momento, o educando é desafiado a voltar para a realidade (pessoal, social), agora com um novo olhar, tendo condições de analisá-la e compreendê-la com mais propriedade, percebendo a complexidade das relações que se estabelecem nos problemas abordados. É esperado, nesta etapa, que o sujeito tenha avançando no seu nível de consciência (FREIRE, 2005), pois, aos poucos, os procedimentos vivenciados oportunizam que a realidade seja percebida e analisada não mais com argumentos circunstanciais ou aparentes, em nível de senso comum menos elaborado, mas que a leitura da realidade e as propostas de intervenção estejam assentadas nas novas bases de fundamentos construídas. A cada conteúdo estudado, com essa metodologia, os educandos desenvolvem uma consciência mais crítica sobre a realidade, o que possibilita sua articulação coletiva em prol de melhorias de vida para o seu grupo social. Esse processo é o que Freire explica como o avanço do nível da consciência ingênua para a crítica, possibilitando a emancipação das pessoas e a transformação da realidade.

A metodologia da problematização favorece também o tratamento interdisciplinar dos conteúdos, com diversas formas (entre elas o tratamento temático, de área de conhecimento, por projetos ou transdisciplinar), especialmente na educação formal, pois, sendo a realidade o seu ponto de partida, essa nunca se apresenta de forma (uni)disciplinar. É salutar também ressaltar que, quando se assume explicitamente a metodologia da problematização como a metodologia privilegiada por Fé e Alegria, isso não significa que tenhamos de assumi-la de forma engessada e uniforme. A pedagogia freireana só pode ter essa identidade se for capaz de se recriar em situações inéditas. Dependendo da área de atuação em que os educadores populares estejam inseridos, em determinados momentos, algum dos passos que a constituem pode requerer maior ou menor ênfase. Outrossim, é recomendável lembrar que a metodologia da problematização é referida também como pedagogia problematizadora (Paulo Freire) e sob este ponto de vista pode ser vivenciada por meio de outras formas e estruturas didáticas além da apresentada anteriormente, como, por exemplo, a do desenvolvimento de projetos pedagógicos.

Na permanente construção da competência humana, mística, técnica e política o educador popular de Fé e Alegria buscará aprofundamentos teóricos e compartilhamento de experiências para, permanentemente, com sabedoria, qualificar a sua ação educativa.
 

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Na educação assumida por Fé e Alegria, a avaliação está intrinsecamente ligada a um planejamento participativo, dialético e dialógico. É através dessa avaliação dialógica e formativa que os objetivos, estratégias e conteúdos são revistos, propiciando ao educando, ao educador e à própria comunidade elementos que os tornem mais conscientes, críticos e competentes em relação ao seu papel de agentes de mudança. A partir desse entendimento, Fé e Alegria assim caracteriza seu processo avaliativo:

• assume a concepção de avaliação emancipatória, o que significa um processo que propicia tanto a construção de sujeitos competentes na leitura da realidade, na proposição e na execução de ações transformadoras quanto a produção de conhecimento;
• envolve todas as pessoas ou representantes de setores, categorias ou áreas profissionais no processo de planejamento, execução e avaliação das ações, da elaboração de orçamentos e projetos, da prestação de contas e dos processos pedagógicos;
• exigente de sistematização de todo e cada processo educativo no sentido de que ele, além de ser fonte de reflexão permanente do próprio grupo, possa ser socializado, contribuindo, assim, para alimentar outras experiências;
• até mais importante do que produzir e ler resultados, a avaliação, compreendida como processo de reflexão, ajuda a refletir sobre como chegamos até aqui, assumindo um caráter de pesquisa, de esforço científico, de construção de conhecimento e também de formação de construtores de conhecimento;
• descarta a figura do avaliador como detentor do poder de ajuizar e do avaliado como mero objeto da avaliação, porque implica responsabilidade de todos na busca coletiva de caminhos que levem à construção de redes cada vez mais amplas de reflexão/avaliação, formadas por educadores, educandos, famílias e comunidade;
• quando se trata de projetos financiados, focaliza os procedimentos, os conteúdos, os objetivos, tendo como prioridade os impactos do projeto perante educandos, educadores, comunidade envolvida e parceiros;
• na educação formal, também tem o papel de subsidiar a família, apresentando os resultados na forma de notas, conceitos, relatórios, relatos, portfólios e outros, permitindo acompanhar o nível de aprendizagem e desenvolvimento do educando, fornecendo informações fundamentais para o acompanhamento da família ao processo educacional dos filhos.
 

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Entendemos por gestão um conjunto de ações realizadas em vista de um objetivo previsto. Esse sentido amplo de gestão designa o momento em que se planejam o que se deseja fazer, a execução do que foi planejado e os processos de controle e de avaliação (BORJAS, 2006). A gestão em Fé e Alegria é uma gestão cooperada, em vista da transformação das pessoas e das estruturas.

Considerando a diversidade da realidade brasileira e os diferentes contextos nos quais se desenvolvem os trabalhos de Fé e Alegria, o princípio da autonomia torna-se uma premência na medida em que traduz o próprio fundamento da vida democrática, que é a aceitação da diferença. A garantia da unidade do Movimento está na clareza das concepções e no compromisso dos envolvidos nessa construção, conforme anunciou Pe. Vélaz ao reconhecer a comunhão na Identidade e Missão, a condição capaz de evitar a dispersão e garantir o respeito à diversidade e ao acolhimento das diferenças.

Em decorrência disso, Fé e Alegria investe na gestão autônoma, cooperada, participativa e compartilhada desde a sua Identidade, a qual se constitui no elo de união capaz de garantir a unidade diante da riqueza e da pluralidade das experiências que estão sendo realizadas nas diferentes regiões do país. Para o aprimoramento dessa prática de gestão, faz-se necessário um constante exercício de reflexão sobre as próprias experiências vividas ao longo dos anos em sua diversidade geográfica e cultural, bem como levar em conta, reconhecer e aprofundar os conhecimentos sobre a qualidade da gestão, a partir dos estudos produzidos sobre a temática.

A gestão, portanto, em Fé e Alegria, deriva da condição de sujeitos de todos, em princípio de subsidiariedade e união de esforços em busca dos processos educacionais libertadores, bem como dos processos de operacionalização. Dessa forma, a gestão:

• é participativa em todos os níveis, de modo que todos sejam incluídos no planejamento, na execução e na avaliação dos processos de trabalho de suas equipes e da instituição;
• assume a concepção de cogestão participativa comunitária — aquela que prima pela organização de equipes de trabalho, pela descentralização das informações e do conhecimento, pela corresponsabilização na tomada de decisões e pela inclusão irrestrita da comunidade na gestão de projetos, centros educativos etc. Essa cogestão pode ocorrer através de assembléias, participação em conselhos gestores e eleição de representantes de cada segmento, sem prescindir, todavia, da presença de Fé e Alegria, com primazia ao representante/coordenador da instituição responsável de dinamizar e impulsionar os processos de participação de forma coletiva em cada projeto, programa ou frente de trabalho de forma que a convergência de esforços como corpo, garanta a melhor organização, a eficácia e a eficiência que se expressa pela efetividade e continuidade dos resultados a longo prazo;
• opta pelos estilos democrático e de consenso de participação, em que, no primeiro, “o poder fica com o grupo, que fixa os objetivos e estabelece os mecanismos de ação”, e, no segundo, “os membros do grupo preferem negociar as propostas, sem precisar recorrer à votação, evitando assim a criação de uma minoria perdedora, que pode provocar depois alguns conflitos (BORJAS, 2006);
• incentiva e dá condições para que cada centro elabore participativamente seu Projeto Político Pedagógico o mais próximo possível da realidade em que vive a comunidade local e da viabilidade de sua articulação, decidindo, ainda, de maneira autônoma, sobre o uso dos recursos e dos procedimentos melhores para alcançar os fins desejados pela coletividade.
 

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Concepção de gestão | Concepção de promoção social comunitária

 
Fé e Alegria é de promoção social porque, diante das necessidades de sujeitos concretos em face da situação de injustiça, se compromete, de forma participativa, a buscar caminhos para a construção de uma sociedade justa e democrática. Para Fé e Alegria:
 
  Promoção Social é a ação coletiva que busca desenvolver as potencialidades das pessoas e das comunidades para colaborar na transformação da sociedade, na construção de um mundo mais justo, participativo, sustentável e solidário. A promoção social não pode ser uma ação institucional isolada, mas compartilhada com muitos outros sujeitos sociais. A promoção social deve ir criando alianças e tecendo redes sociais marcadas por valores como a liberdade, a justiça e a solidariedade. A promoção social busca intervir na melhora da qualidade das condições econômicas, sociais, culturais e políticas da vida das pessoas e das comunidades.
 
A promoção social, portanto, é entendida como um processo de melhora progressiva na qualidade de vida que tem como foco a(s) pessoa(s) concreta(s), nas suas múltiplas dimensões e potencialidades, inserida(s) e comprometida(s) com a sua comunidade. A promoção, nessa perspectiva, reivindica uma noção de processo que impulsiona procedimentos de construção da cidadania como resposta às necessidades da comunidade.

Fé e Alegria assume e amplia essa definição de promoção, incluindo nela o termo “comunitário”, que, dado o contexto, enfatiza a atuação em vários campos: desde a sobrevivência imediata e individual até os aspectos políticos e organizacionais, com o escopo de incidir em mudanças das estruturas que mantêm e perpetuam iniquidades e injustiças sociais.

A promoção social comunitária para Fé e Alegria, portanto, refere-se aos processos de melhoria qualitativa das pessoas para que estas possam atuar de forma crítica e consciente na transformação da sociedade. Na perspectiva de Freire: “A educação muda as pessoas e as pessoas transformam a sociedade” (FREIRE, 1997). Na perspectiva colocada, a ação coletiva busca desenvolver as potencialidades das pessoas e das comunidades visando à transformação da sociedade rumo à construção de um mundo mais justo, participativo, sustentável e solidário.

Para Fé e Alegria, a educação e a promoção social compõem um todo capaz de responder aos desafios propostos, ao adotar uma metodologia compartilhada — a Educação Popular — e colocar como meta comum a transformação. Ambas, educação e promoção, se associam de modos distintos e complementares de atuação nos dois cenários relacionados entre si: comunidade escolar e comunidade educativa.

• Comunidade escolar: dela fazem parte as pessoas e as relações que ocorrem na prática cotidiana de um centro educativo. Tem como finalidade oferecer uma educação de qualidade que forme em valores, atitudes positivas, conhecimentos e habilidades, possibilitando a transformação de pessoas e comunidades, a partir de uma pedagogia popular libertadora e evangelizadora.

• Comunidade educativa: refere-se à comunidade do entorno de cada centro educativo. Dela fazem parte as organizações comunitárias de base, como clube de mães, associações de bairros, igrejas, clubes desportivos etc., que de alguma forma interagem na educação das pessoas.

Fé e Alegria, ao assumir uma promoção social que tenha como finalidade precípua a melhoria da qualidade de vida das pessoas, individualmente, e da sua comunidade, significa que as ações em todas as áreas de atuação vão buscar um equilibrado desenvolvimento humano, nas dimensões física, psicológica, do nível da autonomia, das relações sociais, do ambiente natural, transcendente, econômico-social, político-cultural. Além disso, ter qualidade de vida implica ter hábitos saudáveis, cuidar bem do corpo, ter tempo livre, condições econômicas e/ou espaços públicos para o lazer. Fé e Alegria entende também por qualidade de vida a percepção do indivíduo tanto de sua posição na vida, no contexto da cultura e nos sistemas de valores nos quais se insere como em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações cotidianas.
 
FONTE:  Proposta Educativa de Fé e Alegria Brasil. Fé e Alegria. São Paulo - SP: outubro de 2010.
 

 

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